Como jornalistas digitais da América Latina estão ultrapassando a mídia tradicional

Os prêmios de jornalismo Gabriel García Márquez são considerados um dos reconhecimentos de maior prestígio da mídia de língua espanhola e portuguesa. Notavelmente, em 2016, mais da metade dos indicados em três categorias — texto, reportagem e inovação — produziu um trabalho para sites digitais.

E quando os prêmios “Gabo” foram anunciados em uma conferência de jornalismo em Medellín, Colômbia, no dia 29 de setembro, todos os vencedores nestas categorias foram jornalistas em organizações de notícias online que existem há menos de uma década. E o vencedor do prêmio Gabo à excelência global em jornalismo foi El Faro de El Salvador, o mais antigo site somente online de jornalismo investigativo na América Latina, lançado em 1998.

Este foi sem dúvida um evento importante para os jornalistas da mídia digital em uma região onde as redes tradicionais de TV, rádio e jornais ainda detêm grande influência sobre as suas audiências.

Janine Warner, bolsista Knight do ICFJ, participou da conferência em Medellín e ficou impressionada pelo grau de reconhecimento que canais digitais independentes estão recebendo pelo seu trabalho – e a notável ausência da mídia tradicional latino -americana e espanhol entre aqueles que foram nomeados e os que ganharam.

“Quando soube que mais da metade dos finalistas para os prêmios Gabo foram empreendedores de mídia, eu tive que vir”, explica Warner. “E, vendo que todos os vencedores foram jornalistas empreendedores me fez pensar que este vai ser o ano da inovação do jornalismo na América Latina”.

“Este ano, eles não só estão demonstrando sua coragem e sua capacidade de lançar novas mídias, mas também a sua capacidade de produzir o jornalismo de mais alta qualidade e ganhar o prêmio mais importante da região”, acrescenta ela. “Parabéns a todos!”

Warner é diretora e fundadora da SembraMedia, que visa ajudar empreendedores de mídia digital em espanhol a encontrar modelos de negócios sustentáveis. A organização está rastreando o aumento de canais digitais de notícias e investigação da América Latina, e mantém um diretório de centenas de organizações que surgiram no que poderia ser chamado de boom do jornalismo online regional.

Os vencedores dos prêmios Gabo 2016 incluem a jornalista e empreededora colombiana Juanita León, que ganhou por suas reportagens sobre o processo de paz na Colômbia para La Silla Vacía, que ela fundou em 2009. A Fundação Civio, uma organização não governamental espanhola, que usa reportagem de dados para aumentar a transparência desde 2011, ganhou o prêmio de inovação para um projeto que analisou o alto custo de medicamentos em países em desenvolvimento. Além disso, Natalia Viana do site brasileiro de jornalismo investigativo Agência Pública ganhou o prêmio por sua matéria sobre uma comunidade indígena que sofre com a maior taxa de suicídio do Brasil.

Em Medellín, Warner falou com outros jornalistas latino-americanos e membros da SembraMedia sobre suas reações aos prêmios Gabo deste ano e se é uma indicação de que os jornalistas digitais da América Latina estão ultrapassando os meios de comunicação tradicionais na produção de trabalho inovador de alto impacto. Os vídeos também podem ser vistos em uma lista no canal da SembraMedia no YouTube.

Para Mauricio Jaramillo Marín, fundador e diretor do +Journalism Hangouts e membro da SembraMedia na Colômbia não significa que a mídia tradicional não têm excelentes jornalistas. “Mas os empreendedores de mídia com sua escassez de recursos precisam ser ainda mais criativos, ainda mais inovadores, assumir mais riscos. E assumir riscos significa que às vezes você falha e às vezes você alcança esse sucesso que se manifesta em prêmios, mudanças sociais, melhorias na sua comunidade e assim por diante.”

“Primeiro, eu acho que foi uma coincidência. Não houve nada intencional — é um processo de seleção muito complexo, com muitos juízes. Por um lado eu acho que mostra uma certa maturidade entre os novos canais digitais. E, por outro lado, talvez deve ser um alerta para os meios de comunicação tradicionais que não estão dedicando o tempo e os recursos necessários para projetos especiais.”, declara Rosental Calmon Alves, professor e Catedrático Knight da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Texas em Austin e membro do conselho da SembraMedia.

“Esses projetos jornalísticos que ganharam precisaram de tempo, dedicação, investigação, etc. Por isso, pode ser que os nativos digitais, os [canais] menores, estão botando mais tempo nisso e talvez a mídia tradicional não esteja. Mas isso é apenas uma opinião, porque a realidade é que foi apenas uma coincidência.”

Para Elaine Díaz Rodríguez, diretora do site cubano Periodismo de Barrio e membro da SembraMedia, acredita que enquanto os meios de comunicação de maior dimensão têm enfrentado uma crise econômica, os meios menores têm sido capazes de superar por ser muito mais criativos sobre que histórias vão contar e como usam seus recursos de forma mais razoável.

“Se você olhar para as obras dos finalistas, vai ver que são projetos de equipe ou colaborações entre vários canais e quase todos eles foram publicados online. Então, não havia esse custo adicional da impressão em papel. Portanto, esta falta de recursos, combinada com o desejo de atrair um novo público através da produção de um jornalismo de alta qualidade, é por que que estamos vendo tantos exemplos maravilhosos de empreendedorismo de mídia digital neste festival. ”

Luz Mely Reyes, cofundadora e diretora do site venezuelano Efecto Cocuyo e editora regional da SembraMedia afirma que a partir deste ano, 2016, muitos jornalistas vão produzir jornalismo em seus próprios sites.

“O que eu acho que vimos a partir de 2016 nos prêmios Gabriel García Márquez é que muitos jornalistas estão produzindo jornalismo em seus próprios sites, e tudo isso é resultado das mudanças tecnológicas e outras mudanças que tivemos em alguns países latino-americanos e, é claro, do nosso desejo de produzir um jornalismo de alta qualidade.”

Com informações do blog Ijnet.org