Como o jornalismo de dados pode ajudar sites de notícias na era digital

O termo Jornalismo de Dados, que vem do inglês “Data-driven Journalism” é usado há mais de dez anos nos Estados Unidos. Ele designa notícias produzidas a partir de documentos oficiais, que são desmembrados para gerar conteúdos em formatos diferenciados e didáticos ao público. 

Apesar do termo ser novo e considerado tendência no meio jornalístico, a prática não é inovadora. Desde os primórdios do jornalismo, os repórteres reviram dados oficiais em busca de notícias. Porém, a facilidade no acesso às informações oficiais e a tecnologia impactaram na propagação do jornalismo de dados. 

No dia a dia das redações, a modalidade jornalística percorre o caminho inverso da reportagem de rua. A maioria das matérias diárias derivam de algo factual ou a partir de um tema pré-estabelecido, por exemplo, um acidente de trânsito ou um anúncio feito por um órgão público. 

No jornalismo de dados a equipe de repórteres e editores se debruça sobre números e fontes oficiais, em busca de informações relevantes para a produção de notícias especiais. São os detalhes que podem render as melhores matérias, sempre recheadas de números, estatísticas e possibilidades.

Jornalismo de dados é uma prática inédita?

O jornal britânico The Guardian é o precursor do jornalismo de dados. Em 1821 publicou em sua edição imprensa, um compilado de informações sobre a escola Manchester, com texto, imagem e infográficos. Anos mais tarde, também foi pioneiro no uso de tecnologia para a realização do jornalismo de dados, com o lançamento do seu Datablog, em 2009. 

O jornalismo sempre trabalhou com dados para levar informações à população com clareza. Mas outro marco para o jornalismo de dados foi em 1849 com o jornal norte-americano The New York’s Tribune. A edição impressa levou aos leitores um gráfico explicativo sobre a epidemia de cólera que atingiu os Estados Unidos na época. 

Apesar de as  informações sobre a doença estarem restritas ao pouco que se sabia na época. O gráfico sobre a taxa de mortalidade da cólera resumiu tudo que a sociedade precisava saber, naquele momento, para se prevenir e evitar um número maior de mortos. Como vimos, os infográficos sempre foram grandes aliados do jornalismo de dados.

Jornalismo na era digital

Quase 200 anos depois da publicação do The Guardian, o jornalismo de dados desponta como uma modalidade prática e eficiente para noticiar a pandemia de coronavírus no mundo. A tecnologia proporciona o uso de ferramentas digitais que automatizam a estruturação de dados em sistemas que podem ser acessados online e na palma da mão. 

Os infográficos continuam sendo eficientes na divulgação dos dados, mas invés de estáticos e impressos, agora são dinâmicos e online. Essa multiplicidade de formatos utilizada para exibir os dados compilados, proporciona ao leitor uma experiência interativa e pessoal. Com a tecnologia, o usuário pode navegar por onde e na ordem que desejar.

Sites de notícias e o jornalismo de dados

Mais do que um diferencial para sites de notícias que passam a oferecer um conteúdo relevante aos seus leitores, a prática do jornalismo de dados nas redações significa credibilidade. A modalidade também desponta como maneira de combater a onda crescente de Fake News em todo o mundo. 

Com a politização das notícias, a isenção do conteúdo jornalístico tem sido questionado constantemente. É comum ver pessoas na sociedade desconfiando dos interesses por trás das informações noticiadas pelos veículos de comunicação. O jornalismo de dados se distancia da parcialidade oferecendo números estatísticos, sem interesses comerciais ou ideológicos. 

Jornalismo de dados no Brasil

Muitos podem não ter se dado conta, mas o jornalismo de dados faz parte da rotina de grande parte daqueles que acessam sites de notícias nacionais. Em 2019 o estudante Mathias Felipe de Lima criou uma plataforma online para mapear iniciativas de produção jornalística através de dados.

O portal #DDJBR – Aqui tem Jornalismo de Dados! tem o nome como referência à hashtag data-driven journalism Brazil, em inglês. Conforme o estudo há atualmente 53 organizações no país que utilizam a prática em suas redações. No portal é possível visualizar as iniciativas por estado. São Paulo é o campeão com 24 projetos cadastrados, o Rio de Janeiro aparece em segundo com 13. 

Ações colaborativas em alta

Grandes nome da mídia tradicional e independente, como Globo, UOL, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo estão entre as organizações brasileiras que adotaram o uso do jornalismo de dados em suas redações. 

Seguindo a tendência apontada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) da adoção de projetos colaborativos como maneira de expandir o jornalismo de dados, alguns veículos de mídia tradicionais protagonizaram uma iniciativa inédita em 2020.

Em meio a pandemia do novo coronavírus no Brasil e a decisão do Governo Federal de restringir o acesso a informações do avanço da doença, G1, O Globo, Extra, Estadão, Folha e UOL formaram um consórcio para, juntos, levantar e divulgar dados captados em todos os estados da federação.

Tecnologia como aliada

Para ingressar no jornalismo de dados é fácil. A base será sempre informações oficiais de órgãos públicos ou entidades privadas ou sociais. Além disso, há cursos e ferramentas para quem quer saber mais sobre o assunto.

A plataforma Datajournalism se auto intitula como a maior comunidade de aprendizado de jornalismo de dado mundial. São 13 mil estudantes de jornalismo de dados de todo o mundo, onde além de aprender é possível compartilhar conhecimento. O site é todo em inglês e há opções gratuita e pagas. 

Além disso, há ferramentas gratuitas que auxiliam o jornalista a organizar os dados. O próprio Google oferece algumas opções, como o Google Sheets, que permite editar planilhas e salvá-las na nuvem. Já o Open Refine é uma opção para processar grande quantidade de dados, adequado para uma análise mais complexa das informações. 

O Google também oferece o Explorador de Dados Públicos que pode ser acessado por qualquer pessoa. Com ele é possível explorar, visualizar e comunicar conjuntos de dados de grande dimensão e de interesse público. Segundo o próprio Google, não  é necessário ser um especialista para navegar entre diferentes vistas, fazer as suas próprias comparações e partilhar as suas conclusões.